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Ó da guarda, peixe frito!

Vai com arrozinho de tomate?

Conto de Natal (mais comprido que as coisas compridas)

26.11.21, Peixe Frito

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Isto é deveras um problema. Mas que problema! A Mãe Natal queria fazer uma bela fava com entrecosto, para ir preparando o seu formoso esposo Pai Natal para a época natalícia que, diga-se de passagem, precisa de alimento e sustento que andar ao frio com o trenó, têm muito que se lhe diga, ó se têm! Se o homem não estiver compostinho, não resiste em andar a mordiscar as bolachinhas e bebericar do chocolate quente - culpa sempre o Rudolfo, coitado do Rodolfo, que é ele quem se alambuza das bolachinhas quando, na verdade, só vê-las pela janela e cheirá-las mas das migalhas na barba do Nicolau - que as criancinhas deixam ao pé da lareira - as que deixam... que há aquelas que vão lá retirando uma e outra bolacha e depois quando chega a vez do Pai Natal, está lá o lugar. "Nota do Pai Natal: Criança mal comportada, que comeu as bolachas que eram para o Pai Natal. Ano que vêm, vais ver como elas mordem" - E de ano para ano, nota-se a silhouetta curvilínea a agravar. Bem! Ora era para fazer uma favada mas nada de favas. Não havia na horta frescas, pois não é altura delas, não havia secas na dispensa nem congeladas no congelador, uma autêntica tragédia.

- Nini, faz-te à estrada que são precisas favinhas para a tua paparoca.

- Ó Mommy, não orientas para aí outra coisa? É que está cá um frio da horta e não me apetece ir pôr os presuntos na rua.

- Vá, vá, mexe-te que não vou para nova e ainda há muito que fazer! Estamos prestes a arrancar com a entrega dos presentes e ainda temos de ir abastecer as renas e comprar papel higiénico, que o combustível anda nas horas da morte e com os confinamentos, não podemos dar ao luxo de ficarmos sem papel higiénico, que os duendes são muitos! Ainda começam a limpar o bumbum ao papel de embrulho!

- Humpf, tens razão minha querida. Vou calçar as botas e vou partir, por esta estrada. 

- Mas não vais de trenó?

- Vou mulher, mas que raio. Mas não tens mais que fazer? - e sai de casa, afagando a barba esgadelhada, fechando a porta velozmente antes que ouvisse a esposa a puxar-lhe as orelhas, por não ter posto mais um cavaquinho na lareira.

Senta-se no trenó, já com o Rudolfo a postos a dar corda aos cascos, põe o trenó a funcionar para aquecer, liga a chofagem para desembaciar o vidro da frente, o ar condicionado a ver se aquece os dedinhos dos pés e o rabo das renas e lamenta-se, por ter comprado aquele trenó por impulso, nos tempos em que era jovem e descomprometido, adquirindo uma versão desportiva, o trenó cabriolet mas sem a capota de lona. Pode ser muito sexy andar com a barba ao vento, a fazer show no verão mas quando cai neve, até os macaquinhos do nariz emigram para os países baixos, para estarem mais agasalhados. A máquina estava a postos e lá vai ele. Sobe sobe e sobe (quase como o balão), passando pelas copas das árvores - levando com um ramo nas fuças de quando a quando, uma bolota na testa - e antes de atravessar as nuvens gordinhas e fofas de chuvinha, acena ao rapaz que ia a voar em uma bicicleta, com um bicho qualquer sentado na cesta na frente da pasteleira, e pergunta-se que raio andavam aqueles dois a fazer na rua a aquela hora? Enfim. Deu uma gazada às renas e aí vai ele. Sem saber o que se passou, de repente formou-se uma nuvem de neve, uma tempestade ciclónica já com vacas a voarem e carros e telhados de casas e cães e gatos...! Tentou travar mas como ainda não tinha levado o trenó à revisão, as pastilhas das renas não corresponderam com a precisão esperada... o Pai Natal bem que metia o pé mas já era só o ferro no disco e pronto... tudo estava para correr mal! Derraparam em um floquinho de neve e lá foram eles nas horas do caraças, sendo levados para a casa da outra senhora.

Quando deu por si, afinal afinal tinha conseguido agarrar bem as hastes das renas e ido parar a bom porto. Ufa...! Ainda bem que levou cueca reforçada, porque tudo indicava que ia dar molho na certa. Viu lá embaixo uma estrutura cinzenta, que era o minimercado dos senhores advindos das índias, deu uma volta à viatura e estacionou. Distraído, saiu com toda a brida, nem olhando bem ao redor. Mas o Rudolfo, atento como sempre, desconfiou que algo se passava. Além de lhe estar a doer o joanete de estimação do casco dianteiro esquerdo, que dá sinal quando vai nevar, achou tudo muito deserto. Abandonado. Sem vivalma. Não haviam luzes. Barulho. Silêncio. Havia porra nenhuma, somente espaço e... olha, mas aquilo ali é uma unha do pé? E aquilo... um pêlo das pernas? e... e... uma mão? (*som típico que os mortos vivos fazem, sei eu lá qual, olhem arrastar os pés, se babarem, o som da terra a cair no chão, as roupas a restolharem e a prenderem nas maçanetas das portas dos carros abertas*) e quando olha em redor, quase que pareciam as rodagens do Thriller, só que não!!

- Ó Nicolau pá, gajo do caraças, raios partam mais ao teu gps mais a porra, onde foste aterrar seu animal de palco!!! Anda mazé embora senão ainda nos finamos aqui, no meio desta gente toda mal amanhada, que já estão a afiar os dentes para nos petiscarem!!! Ó Nicolaaaaaaauuuuuuuu!!

Sem dramas que isto é uma história para crianças poderem ouvir à distância, Nicolau ainda ouviu a tempo a lamúria do Roro, pois quando se chegou mais às portas do estabelecimento, estranhou a ausência do cheiro a especiarias e só ver tudo mais escuro como o breu e rodou os calcanhares. Viu aquele aparato todo a querer rodear o trenó, saca do seu sabre de luz e começa a espadeirar aquela gentalha toda, a abrir espaço, enquanto dava instrucções ao trenó, para ligar e se porem a milhas.

«Mas e agora» pensava ele, «onde vou eu arranjar as favas no meio desta confusão toda?»

A verdade é que o Pai Natal e as renas, entraram em um portal temporal, que abriu no preciso momento em que pisaram no floquinho de neve. O que se avizinhava não era mais do que a luta pela sobrevivência e solução para voltarem para a sua linha de tempo original. Atalhando, anos se passaram. Anos e anos. O Pai Natal, como resultado das adversidades e instinto de sobrevivência, foi resistindo a todos os zombies que lhe queriam cortar a barba e usar como cachecol durante o frio que era uma constante naquele universo. E ele, a custo, cheio de saudades da sua Mãe Natal, só pensava como ela estava e que provavelmente o tinha substituído por um Pai Natal a pilhas, que pronto, era mais económico não é verdade, e até abanam a cintura, piscam luzinhas, cantam músicas natalícias e assim. Um dia, aceitou o seu destino. Decidiu deitar-se no seu trenó estilo MadMax e esperar pela sua hora. Desistiu. A sua vida não era nada sem a sua cara metade. O Rudolfo, juntou-se a ele. Recordaram os bons momentos que viveram e a rena até perdoou o Pai Natal por ele lhe pôr as culpas em cima acerca das bolachas e o mesmo até disse:

- Rodolfo, minha rena do coração, se pudesse voltar atrás, te garanto que emendava tudo isso e deixava de ratar as bolachinhas e encafuar nos bolsos, para comer mais tarde quando chegasse a casa e a Mãe Natal estivesse a dormir.

Eis que, começou a ouvir. Primeiro bem ao fundo do fundo, lá ao fuuuuuundo... uma voz familiar. "Nini..." trazia o vento suave. "Niniiiiiiiiiiii...." cada vez mais perto.

- Ó Rudolfo, vai gozar com quem te fez as hastes! Então mas agora deu-te para te meteres comigo, logo agora, nas portas da suposta morte??

- Não sou eu, ó tótó. Cotonetes, nunca ouviste falar?? Estou aqui na minha vidinha, tenho mais que fazer do que me armar em assombração.

"Niniiiiiiiii..." continuava a ouvir. "Niniiiiiiii".... estava já a começar a arrepiar as peles... 

- Nini pá, caraças do homem!! - pantufada na cabeça com o homem de gengibre, que não achou lá muita graça à situação - estou para aqui a chamar-te. Voltaste a adormecer??

Meio atordoado, ainda com as ramelas nos cantos dos olhos e a baba a escorrer pela barba, o Pai Natal toma consciência, meio abananado da solha que levou da Mãe Natal, que estava na sua casinha no Pólo Norte e que tudo não tinha passado de um sonho.

- Maria, desculpa. Ando cansado. Vou já buscar as favas para o petisco - levanta-se e calça as botas. Ajeita o cachecol, ainda com aquele sonho esquisito na cabeça. «Que raio Nicolau, andas a respirar muito fumo da lenha da lareira e muita cola da fábrica dos bonecos» e abre a porta. 

- Rudolfo! Ó Rudolfo! Anda lá meter o pé na estrada, que temos afazeres!

Eis que, quando dá a volta a casa, dá com o seu trenó e o Rudolfo com o capot aberto. Pára e olha com olhos de ver... Mas que raio se passou com o trenó? Parecia mesmo vindo de um filme de apocalipse.

- Nicolau, então, anda, vamos - diz Rudolfo, com o charuto aceso ao canto da boca - temos uns assuntos para tratar: enquanto bateste uma sestinha, o mundo teve uma grave alteração: os pólos derreteram, os ursos são pelados agora, os peixes andam na terra, deixou de haver farinha para os biscoitos...

- Nãooooooo isso é que nãoooooo - grita Nicolau terrifcado com as novidades.

- Pois é meu amigo, o futuro dos biscoitos, depende de nós. Vamos lá caçar uns zombies e metê-los a fazer farinha.

FIM

 

Este conto de natal teve origem em ter sido desafiada à descarada pela Ana de Deus, na sequência do desafio natalício lançado pela Imsilva. Constava em escrever um conto de natal, inspirado na fotografia. E aqui está ele, frito e escorrido e como estamos na época natalícia, polvilhado com açúcar e canela.

Boas Festas 

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