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Ó da guarda, peixe frito!

Vai com arrozinho de tomate?

De coração partido. E revoltado.

07.10.18, Peixe Frito

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(foto tirada aqui pela gaja)

 

Agora um post completamente diferente.

E foi ontem à noite, que um dos meus maiores terrores ganhou vida: a serra do meu coração começou a arder. Não sei explicar o sentimento, eu panico com alguma facilidade quando há ameaças de fogos nas redondezas da serra, não com medo que chegue até mim mas sim com um misto de impotência e dor, por a eventual possibilidade de ela ser novamente deflagrada por um incêndio de enormes proporções, como um que se deu há anos. Eu não me recordo de o viver, ou ainda era pequena ou quase nascida, quando um enorme incêndio consumiu toda a serra de Sintra. Cresci com esse monstro numa memória sempre a ser relembrada, pois cada vez que olhava para a serra, via os seus ossos a descoberto, as suas enormes pedras à vista de todos, sem vegetação a tapar. Anos foram passando, eu e a flora da serra crescendo. Frequentes visitas aos seus trilhos, locais, quer em família quer sozinha - cresci a ir passear à serra ao fim-de-semana com a família, que era a única altura em que os meus pais trabalhadores tinham um momento para os filhos, andando pelo meio da serra a ser questionada pelo pai Adamastor: "Peixa, que espécie é esta?" "E aquela planta ali, sabes qual é?" me ensinando assim quem era quem e agora já adulta, é o meu refúgio de quando não estou bem: quando a tristeza me habita a alma, é para a serra que vou, para me animar. É o meu porto seguro. Onde chego e sinto fazer parte daquele sítio e onde sou bem-vinda. Tudo isto me faz sentir parte dela - Afinal de contas, eu vivi o seu renascer e ela me viu crescer a mim, em todas as fases da minha vida. Uma sensação de "casa" cada vez que lá estou e um amor enorme que nutro por ela, me faz todos os anos ficar de coração apertado, na altura do Verão, pedindo a todos os anjinhos que ela continue a crescer, a albergar espécies protegidas e a permitir que quem recorre a ela, se regenere das suas questões quotidianas, sendo poupada de incêndios.

Sei que existe quase sempre o interesse económico, quando se põe a pegar fogo a áreas destas, reduzindo a vida a cinzas e o habitual cheiro a árvores, a queimado. Porém, com base no histórico que o nosso país têm tido nos últimos anos, a moda dos incêndios anda em voga e eu não compreendo como o ser humano é capaz de fazer isso, a sério. Não sou ingenua e compreendo perfeitamente os interesses por detrás disto tudo, mas o que não compreendo é como é que essa maldade consegue ir avante. Quem põe fogo, não têm coração? Onde acham que este tipo de acções nos levam a todos? - sim, a todos porque até eu que não compactuo com estas coisas, sou afectada.

Só me resta agradecer o esforço de todas as entidades envolvidas, em extinguir o incêndio e prestar apoio às pessoas na zonas afectadas, que o fizeram com extrema prontidão e sucesso (felizmente). E esperar que um dia soe o alarme na alma de quem têm a indecência de ter actos sem escrúpulos, que acordem para a vida e de facto respeitem tudo o que é ser vivo, ajudando a que prosperem e não que definhem, com contributo directo das suas mãos e acções.

Eu chorei a ver a serra arder, tal como sempre que vejo incêndios de grandes dimensões seja onde for. Não sou mais humana do que qualquer outro ser que pise a Terra, me sendo indiferente qualquer sofrimento quer humano quer de natureza, muito pelo contrário e é por isso que me faz extrema urticária - estou a ser amável como podem presumir - estas atitudes do ser humano.

Ver a terra que nos viu nascer e nos têm criado a arder, é quase como ver um familiar a ser atacado e ferido. Há laços que se têm, independentemente de se ser uma árvore ou uma pessoa.

Tomara que quem o fez, não tenha sombra onde se esconder e fique a descoberto, vulnerável, tal como as consequências da sua maldade a uma natureza que nada de mal lhe fez, sem ser somente existir.